Dois cones colocados na calçada indicavam o alvo: um pequeno hotel na alameda Barão de Limeira, 814, região central de São Paulo, com um consumo mensal de água muito abaixo do esperado.

O operário João Batista dos Santos, 63, quebrava a calçada em busca de alguma adaptação irregular à rede.

“A pressão está acima do normal”, dizia ele aos curiosos, sem fazer muito esforço para esconder que era uma frase meio padrão usada nas investigações de fraude.

As perfurações tiveram início logo após um simples e eficiente teste feito pelo colega de trabalho de Santos, Rodrigo Moreira Alves, 26.

Após pedir autorização ao funcionário do hotel, que dizia se chamar Lucas, Alves fechou o registro da Sabesp e subiu até a caixa-d’água para analisar as consequências daquela ação. A água, porém, continuava a jorrar como se nada tivesse acontecido.

Como o hotel não tinha nenhuma outra fonte de água, como um poço artesiano, as suspeitas de fraude contra ele aumentaram. E o histórico do lugar não era nada favorável. Em 2014, segundo os funcionários, o mesmo hotel já tinha sido flagrado realizando fraudes no hidrômetro.

Mas uma faixa indicava: sob nova direção. Quem sabe não era uma falha no relógio?

A calçada era quebrada, mas tudo parecia normal. Só o cano da Sabesp mesmo. Os operários continuaram a busca pelo chão da esquerda para direita. E nada.

Mas, às 13h39, cerca de uma hora depois, o funcionário especializado em investigação de fraude Geraldo Prado, 59, gritou. “Olha o bichão ali”, disse, ao ver o primeiro sinal de um cano azul, enrolado, de uma ligação direta.

O encanador tinha tentando esconder o cano fora da rota que normalmente os operários da Sabesp procurariam. Mas não deu certo, e a polícia foi acionada. A prática é considerada furto e passível de prisão em flagrante.

DELEGACIA

“Cara, estou no aperto aqui”, implorava ao telefone o funcionário Marcos Antonio Gonçalves, 21, que antes era Lucas, ao tentar convencer o dono do hotel a aparecer.

Além do repórter da Folha, o telefonema era acompanhada pelo investigador de polícia Sidney Perrone, 59.

Como o patrão não se comoveu com os apelos, o policial teve de levar o funcionário ao 3º DP (Campos Elíseos) para registro do boletim. “Não sabia nada disso”, disse Gonçalves à reportagem. Ele foi liberado horas depois.

 

Texto extraído de: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/02/1585985-olha-o-bichao-ali-grita-tecnicos-que-caca-fraudes-de-agua-em-sp.shtml